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Diz que já foi todo ou praticamente todo desocupado, do sítio de sempre, o edifício o Diário de Noticias. Está-me ligado à história. À minha história. E de que maneira. Foi lá que comecei a trabalhar a sério e me deixei encantar pela profissão. Foi lá que aprendi muito com os “velhos” que por lá andavam. Foi lá que me apaixonei perdidamente pela miúda que convidei para tomar umas caipirinhas e para a qual hoje olho feliz, todos os dias quando acordo. Diz-me muito o DN.

  1. Curso acabado. E agora? Quero ser product manager da Unilever, Nestlé ou L’oreal, claro. Mas os primeiros que me contactaram não foram esses. Foi um jornal. A minha mãe tinha dado o meu CV (vazio, está bom de se ver) a toda a gente que conhecia, entre as quais a D. Lurdes que trabalhava na revisão de anúncios. Fui lá.

Conheci o Carlos, conheci o João e comecei dois ou três dias depois da entrevista. Fui o primeiro “sangue novo” de todo o departamento comercial. Fumava-se naquela sala virada para a Avenida da Liberdade e eu nem sabia muito bem o que ia fazer quando lá cheguei, mas aprendi rápido. Módulos, tabelas de preços, dimensões, vender anúncios no jornal e nos suplementos era fácil numa altura em que tantos circulavam nas mãos dos portugueses. Aprendi muito com todas aquelas pessoas que “respiravam” o DN há pelo menos 20 anos e que olhavam de soslaio para mim, que imprimia folhas em casa na minha impressora e chegava de manhã ao jornal para enviar uma carrada de faxes por dia com a minha apresentação. Eles que nem computadores tinham, nem queriam ouvir falar de tais bichos desnecessários ao seu trabalho. Em pouco tempo comecei a faturar. E bem. Os jantares e as sucessivas noites de copos foram muitas vezes à conta do meu cartão de crédito. Os meus amigos adoravam o meu trabalho, eles, alguns, que acabados de sair da faculdade estavam a ganhar misérias como estagiários ou, nalguns casos, gestores de produto.

Aproximava-se a Expo 98 e o DN era o jornal oficial. Mais vendas, mais ramboia e o cruzar nas escadas de um olhar que me fez ir à redação tratar de não assuntos algumas vezes. E ir à redação do DN, naquela altura, era um passo “atrevido”. Lembro-me de como os jornalistas de então, doutas figuras, “mandavam” no jornal (e nos meios em geral), e como detestavam ser perturbados com assuntos de índole que não lhes diziam respeito. E de como me estava nas tintas para isso, ao contrário da maior parte dos meus colegas de profissão, que tinham um respeito excessivo por aquela redação, sempre envolta num impressionante manto de nevoeiro, do tanto que por lá se fumava.

Algum tempo depois, senti estar sempre a apertar os mesmos parafusos no meu trabalho e resolvi mudar – tinha que trabalhar com agencias de meios e criativas onde estava tanta gente que conhecia. E larguei o meu primeiro emprego a sério, onde tão bem ganhava, ora o dinheiro não era tudo, era novo, queria aprender, precisava de evoluir. Obviamente, não larguei o meu amor, com quem me casei dois anos depois.

Uns anos depois fui convidado a voltar. Era preciso alguém que substituísse o Álvaro, o contato das agências nos últimos mais de 30 anos. Fui. Com funções de maior responsabilidade, voltei para ser feliz outra vez. Comovi-me com a saída de algumas das figuras do departamento comercial, com tantos anos de DN, especialmente com a do Álvaro. Fomos almoçar algumas vezes depois da sua despedida e fiz questão de lhe ir reportando algumas novidades do mercado e perceber que se adaptou bem a uma nova vida sem jornal.

Dele guardo um profissionalismo irrepreensível até ao último segundo e jamais me esquecerei do que me disse no seu último dia, numa conversa entre as escadas de pedra, os murais de Almada Negreiros e a mágica porta giratória do edifício projetado por Pardal Monteiro. “Ricardo, nesta profissão não temos muitos amigos. Dos bons. Em tantos anos de trabalho levo uma ou duas mãos cheias. A relação entre as pessoas guia-se por interesses e se não tiverem interesse no que tens para lhes dar e apresentar... “ Disse-o em qualquer mágoa e com um discernimento impressionante. E percebi. E sei que tinha razão.

Tenho lido algumas coisas sobre a saída do DN da Avenida da Liberdade, sobretudo sobre a saída da emblemática redação, o coração do jornal. No entanto, para além das redações, os meios têm um lado B, os outros departamentos, que também perdem alguma da sua identidade com transformações deste género. E por muito que, de forma pragmática, se olhe em frente e nos lembremos que são as pessoas que constroem o valor das empresas e não as localizações dos seus edifícios ou sedes, é inevitável olhar agora para aquele Prémio Valmor, parte integrante da paisagem urbanística do centro da cidade há tantos anos, com alguma tristeza.

Espero, muito sinceramente, que esta mudança que acontece naturalmente por questões económicas do grupo editorial onde o DN se insere, não seja um daqueles indícios de um fim que não queremos ver.

Diz que já foi todo ou praticamente todo desocupado, do sítio de sempre, o edifício o Diário de Noticias. Evacuado, li algures. Está-me ligado à história. À minha história.

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