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Litle Britain

24.06.16

A Europa que conhecemos, definitivamente, acabou hoje, enquanto dormíamos. O país que é o mais antigo aliado de Portugal, o centro financeiro da Europa e responsável por cerca de 16% da produção económica da UE, está out. No futuro, creio, haverá um novo significado para a expressão black friday. E não será bom.

Espera-se que este “terramoto” tenha réplicas noutros países. Espero, sobretudo, que a UE consiga encontrar soluções equilibradas para as suas vetustas instituições, não se deixando mergulhar numa crise económica provocada pela inconsciência dos eleitores britânicos mais velhos e rurais.

Ironia incrível, quando afirmamos que a idade é sinónimo de maturidade e sabedoria e percebemos que, maioritariamente, os mais velhos, pobres e com menos estudos foram os que quiseram sair. Quase como se não soubessem, por ignorância, a razão pela qual estavam a votar.

Ironia, aliás, é ver os jovens britânicos que optaram, na sua maioria, pelo “ficar”, terem que viver, provavelmente, mais uns 50/60/70 anos, com uma decisão tomada pelos mais velhos, que têm uma esperança média de vida substancialmente mais reduzida.

Ironia é também termos crescido com a noção clara de que a Grã-Bretanha era um dos principais bastiões de educação e solidariedade e agora os vemos virarem costas a uma UE que, mesmo com muitos defeitos, demorou décadas a construir.

E assistir a praticamente toda uma europa a pedir para ficarem e agora são eles que têm que pedir à Escócia e Irlanda para permanecerem no seu jugo? Isn't it ironic?

Ironia será também ver o Reino Unido a ter que sujeitar-se a tudo o que aparentemente não gosta na UE, como a liberdade de circulação ou a obrigatória dependência da legislação europeia, mas desta vez sem poder contestar.

Mas há mais. A ironia que será, fruto do efeito dominó, ver outros países a avançar com referendos similares, mas cujo resultado poderá ser inverso ao deste - enfraquecendo assim ainda mais a posição da GB.

E esta confiança na saída transformar-se numa crise, também de confiança e com insegurança à mistura, quando as empresas sentirem dificuldades para investir na GB e começarem a deslocar os seus negócios para os países da UE?

E ter-se sabido hoje que uma das maiores promessas do brexit (o investimento de 350 milhões de libras por semana no SNS britânico) é completamente inexequível e foi um erro (entre outros, segundo Nigel Farage) reiterado pelos seus principais apoiantes?

Ironia maior, espero que aconteça aos patetas alegres populistas e de extrema direita por essa europa fora - e que andam nas últimas horas, quais papagaios falantes, a regozijar-se com este resultado e a anunciar novas soberanias nacionais - ao serem rotundamente desmerecidos pela sociedade e francamente derrotados, até uma (quase) extinção.

Enfim, na prática os mercados estão e vão estar em alvoroço nos próximos dias / semanas / meses, a libra entrou definitivamente em colapso e o que vem a seguir é uma incógnita. Basicamente, um conjunto de demagogos com influência social conseguiu, com eficácia e através de uma estratégia típica e fácil de apontar baterias ao inimigo externo, levar os britânicos a acreditar na ficção de que é possível ter os benefícios de um mundo correlativo, sem ser - efetivamente - parte integrante do mesmo.

Decididamente, esta saída não é benéfica para a União Europeia, nem para a GB. Juntos seríamos, com toda a certeza, mais fortes. Claramente, a old school não percebeu que os problemas do país não são, na sua maioria, de responsabilidade externa e mostrou também não ter vontade de encarar a globalização económica e social como o caminho natural da sociedade em que vivemos.

Talvez pensar que esta decisão possa um dia ser reversível fosse a forma de encontrar aqui uma espécie de always look at the bright side of life, mas não me parece. Resta-nos refletir na razão pela qual aconteceu, que consequências efetivas trará e como podemos “acomodar-nos” na nova UE.

Lembro-me dos Waterboys e de um tema de 1985. A Old England ressuscitou. Mas com a morte anunciada.

 

 

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